Thursday, June 16, 2005

CONTO UFOLÓGICO

A FAMÍLIA DE BARROS CÂMARA



Wendell Stein

Extraído do livro Sangues da noite e outras histórias


— Droga! — murmurou Francisco.
Era a terceira vez que a enxada escapava do pequeno cabo de madeira. A tarde já vinha chegando e se o garoto não terminasse todo o serviço, escutaria as reclamações do pai. Era compreensível. Francisco sabia que a preparação da terra no tempo certo era necessária. As colheitas anuais do milho, há muito, não davam um retorno financeiro suficiente.
A família estava apostando tudo nesta colheita, inclusive a hipoteca do sítio.
O sino da pequena igreja de Barros Câmara começou a tilintar no final do horizonte.
O garoto colocou a enxada quebrada no ombro. Caminhou vagarosamente para sua casa. O lugar era modesto, uma casinha feita com tijolos caseiros e ripas de bambu e madeira. Uma imensa jabuticabeira fazia contraste com a casa.
Remexendo o arroz em uma velha panela de ferro, Dona Dinorá, mãe de Francisco, cozinhava o jantar. Sentado em uma cadeira de balanço, Seu Antônio preparava um cigarro de palha, cortando o tabaco com um canivete enferrujado. Ao perceber o olhar do filho, perguntou:
— Chico, terminou seu trabalho?
— A enxada... ela quebrou de novo. Amanhã cedo irei preparar outra base de madeira como cabo, falta só um pequeno pedaço de terra.
Seu Antônio levantou-se da cadeira e disse bruscamente:
— Você sabe o que esta colheita significa para nós! E mesmo assim não mantém seu compromisso!
O garoto saiu esquivando-se do pai:
— Aonde vai, moleque? — perguntou o pai, pronto para seguir o filho, mas sua esposa o segurou pelo braço e pediu:
— Deixe-o ir! Você exige demais do garoto.
— Não é isso, mulher. Ele tem uma casa, uma família e nunca lhe faltou comida! Você sabe como sofri nos velhos tempos. Hoje este lugar é a única coisa que nos resta!
— Eu sei, mas lembre-se que hoje já não é igual aos velhos tempos!
Francisco caminhou até o outro lado da cabana de ferramentas, ficou sentado, contemplando a imensa planície.
A noite chegara por inteiro, às cigarras cantavam entre as laranjeiras uma triste melodia. Lembrou-se do irmão que morrera no ano retrasado em um acidente.
Havia muitos ressentimentos nessas recordações...
Um maldito acidente com um trator. O pai que o dirigia. Maurício tinha deixado seus sonhos de um dia vencer na vida em uma cidade grande, embaixo das rodas e ferramentas do velho Ford 78.
“Pare de pensar nisso!”
Entrou na cabana de ferramentas e começou a preparar outra base para a enxada. No dia seguinte, acordou com a voz do pai. Notou uma expressão de preocupação no rosto.
— Aconteceu alguma coisa, pai?
Ele respondeu, passando a mão sobre a testa morena e suada:
— Sim. Venha ver. Lá na cocheira.
Caminhou até lá, acompanhado do pai. No pasto ao lado da cocheira, uma vaca estava estendida. O corpo todo aberto e dilacerado...
...Igual às imagens do corpo do irmão.
Naquele dia do acidente olhara por poucos segundos, em meio aos gritos do pai, mas as imagens pareciam nítidas e eternas em seus pensamentos.
“Em nome de Deus, pare de pensar nisso!”
Francisco virou a cabeça. Era difícil olhar.
— Venha, Chico, vamos.
— Para onde?
— Para a delegacia. Isso foi obra de gente e não de algum animal.
Armaram a carroça e seguiram até a delegacia, que ficava ao lado da igreja.
— Sim, eu entendo — respondeu o delegado. Suas bochechas vermelhas e gordas pingavam suor, o bigode ruivo contrastava com as poucas mechas de cabelo que tinha sobre a cabeça, parecido com aqueles padres de filmes norte americanos. Em sua mão direita, ele segurava um cigarro. Deu uma longa tragada e continuou a falar. — Olha, há vinte anos que estou nesta cidade. Barros Câmara é uma cidade pra lá de calma, nunca houve casos de roubo de gado, nem aqui e nem em nossa região. Veja só, até visitantes é difícil recebermos. Esse município é um lugarejo longe do mundo, nós e seus oitocentos habitantes.
O delegado tragou mais uma vez, e completou:
— Mas a verdade é que o animal foi morto e alguém fez isso. Já abri um boletim de ocorrência e investigarei. Por enquanto só posso pedir calma, e que o senhor volte para casa. Fique com os olhos abertos, qualquer barulho de carro, cavalo ou charrete que se aproximar do sítio, entre imediatamente em contato.
Francisco perguntou ao delegado:
— Quem pode ter feito isso, delegado?
— Pergunta difícil, garoto. Não posso fazer afirmações, mas tenho conhecimento, é só olhar nos grandes jornais. Aqui no Brasil, no nordeste e em São Paulo, os rituais de magia negra têm aumentado e em números bastante significativos... mas não vamos nos preocupar. Prefiro acreditar
que foram apenas alguns moleques na cidade que fizeram essa maldade com o animal.
“Magia negra... moleques da cidade... tem alguma coisa muito má nisso tudo.”
“Ora, pare com isso!”
No mesmo dia, com a ajuda de seu pai, Francisco conseguiu terminar todos os trechos na terra, feitas para permitir a passagem da água para irrigação.
Agora era só esperar o milho amadurecer.
Durante o jantar, o pai comentou com um sorriso de satisfação:
— As sementes são boas, e a terra está perfeita. Acho que vamos ter algum retorno nesta safra.
— Deus te ouça, homem! — murmurou Dona Dinorá.
Seu Antônio completou o comentário, dirigindo a voz para Francisco:
— Então, Chico, você poderá voltar para o colégio e terminar o segundo grau. Não é isso que você quer?
— Sim, obrigado, pai.
Durante a noite Francisco teve sonhos.
Foram todos maus sonhos.
De manhã, Chico e seu pai foram para a cocheira, onde Dona Dinorá ordenhava as vacas. Os doces e queijos que a mãe fabricava no sítio não davam grande lucro, mas ajudava a família se manter durante os intervalos de colheita. A própria mulher é que vendia os produtos na cidade. Ao ver o filho e o marido na cocheira, ela comentou, confusa:
— Está faltando outra vaca.
Antônio apontou para o pasto e pediu a Chico:
— Filho, veja se o animal não ficou lá do outro lado do pasto, rápido.
Chico olhou por entre o pasto e avistou o corpo, disse:
— Eu a encontrei. Está morta.
O animal não apresentava nenhum sinal de dilaceramento ou marca de violência.
— Devem ter envenenado ela — comentou o pai.
O rapaz examinou a barriga do animal e percebeu que uma fina costura jazia no couro da vaca. Talvez fosse só impressão. Andou alguns metros no pasto e observou que em uma determinada parte existia um círculo queimado. Um desenho um pouco maior do que um pneu de
trator.
— Alguma coisa, filho? — perguntou o pai.
Chico olhou novamente para a marca, e respondeu:
— Não, não há nada.
O delegado veio para o sítio, minutos depois, quando examinou a vaca. Não encontrou nada. Talvez o animal realmente tivesse sido envenenado.
O delegado explicou que a polícia da capital possuía homens especializados em roubos de gado e problemas deste tipo. Era um departamento criado há quatro anos em resposta a um pedido da Associação Brasileira de Criadores de Gado. Surgiu devido ao grande número de furtos de animais que estavam ocorrendo no interior. Ele iria solicitar a presença destes profissionais. Em dois dias os policiais estariam na cidade.
O padre Joel comentou sobre a morte das vacas durante a missa de domingo. Francisco gostava de visitar a casa do padre. Ele possuía centenas de livros, e era lá que o garoto estudou grande parte de sua vida. O padre era de personalidade forte, assim como Chico. Ele pensava que a pobreza não era sinônima de ignorância, qualquer um poderia ter acesso a cultura, era só a pessoa querer. Houve uma ocasião durante a missa que o padre fez um sermão em que dizia:
— O problema de nosso país é a ignorância. O dia que os governantes derem ensino e condições de educação para juventude, aí sim, seremos um país de primeiro mundo. Mas para um dia chegarmos lá, teremos que lutar, e muito!
Chico resolveu visitar a casa do padre, que o recebeu com um sorriso.
— Como tem ido nos estudos, filho?
— Bem, padre, talvez este ano a colheita renda bem, e então poderei ir à escola terminar o segundo grau.
— Isso é muito bom, estarei torcendo por você. — Um longo intervalo e o padre lamentou: — Sinto muito em relação ao gado.
— Tudo bem. Meus pais ficaram um pouco abalados, mas já estão calmos. Amanhã virá um policial da cidade que ficará por alguns dias vigiando nosso sítio.
— Bem, e o que você quer, ler um pouco? Você sabe, a minha biblioteca estará sempre aberta para você.
— Não, não é bem isso, padre. Vim apenas conversar um pouco.
— E conversar sobre o quê? — perguntou o padre, sentando em uma cadeira. Acenou para o garoto se sentar também.
— Padre, o que o senhor acha do Mal?
— Não entendi a pergunta, Chico.
— O Mal, ele existe realmente?
O padre levantou-se da cadeira, um pouco perplexo pela pergunta:
— Bem, o que posso responder... Sim, e é por causa dele que estamos aqui. Talvez seja isso, talvez não. Não posso ir contra meus princípios. Direi apenas que ele existe e é muito forte.
— Mais forte do que o Bem?
— Não — disse secamente o padre. — O Bem é o poder mais forte que existe. Você estando deste lado, o Mal jamais poderá te dominar. Durante toda a história, a fé sempre foi a arma mais forte do homem, entende?
— Acho que sim...
“Por que está aqui fazendo estas perguntas? Está com medo de algo?
“Ora, cale-se Francisco, você não está louco, está?”
O garoto ficou alguns minutos em silêncio, e então se despediu do padre. No caminho para casa, reparou na grande cruz de madeira da cidade, construída por imigrantes no começo do século. Media alguns metros e estava toda corroída pelo tempo.
“Deveriam pintá-la” pensou.
Na casa, Seu Antônio contou ao filho:
— Conversei com o delegado e ele concordou em fazer uma vigília noturna no sítio, até o pessoal da cidade chegar amanhã. Isso pelo menos afastará qualquer pessoa que queira molestar nossos animais.
— Isso é bom — respondeu, sentando-se à mesa do jantar.
Estava com bastante apetite. Comeu metade da galinha caipira que a mãe preparou. Entrou em seu quarto e deitou-se, ligando um pequeno rádio FM que ganhou do pai no último aniversário. Não demorou muito e as músicas foram interrompidas pelo noticiário A Voz do Brasil, todos os dias há mais de trinta anos atrapalhando a programação do rádio. Minutos antes de desligar, ouviu uma breve notícia:
“...Bzz... A Força Aérea Brasileira continua negando-se a comentar sobre as estranhas luzes que vários moradores do interior de São Paulo afirmam terem vistos...”
Desligou o rádio. Gostaria de não tê-lo ligado. Sem sono, foi para fora e ficou sentado com o pai, em cima da porteira da entrada do sítio. O delegado estava passando com seu carro, saudou acenando.
— Boa Noite. Já comecei com o primeiro turno. A cada uma hora estarei passando por aqui.
— Obrigado novamente, delegado — agradeceu Seu Antônio.
O delegado partiu em seguida. Desconfiado, Francisco comentou:
— Ele não estava parecendo um pouco estranho?
— Sei o que você quer dizer, Chico, mas há dois anos que ele largou a bebida. É só impressão.
Foram dormir minutos depois. Chico se contorcia na cama, os sonhos maus novamente vieram. Despertou com um barulho de um leve assobio sobre o teto da casa. Vestiu sua camisa e calçou os chinelos. Saiu da casa sem fazer barulho, não queria acordar ninguém. Poderia ser apenas o vento.
“Larga de ser idiota, cara. Vamos, volte dormir.”
Um outro leve barulho rompeu o silêncio. O som de algo metálico. Viu do outro lado da estradinha, o carro do delegado. Foi até lá. Ele dormia sobre o volante, abraçado a uma garrafa de vodka. Preferiu não acordá-lo. Correu para a pequena cabana de ferramentas e pegou a espingarda do pai, carregou-a com alguns cartuchos. Caminhou para a direção de onde se originava o ruído. Avistou um objeto bem no centro do pasto. Assemelhava-se a um prato. Era brilhante com um pilar apoiando-se no chão. Observou ao lado do objeto uma pequena pessoa, trajando uma roupa que emitia um leve brilho azulado.
“Mas que diabo é isso?
“Pare de pensar. Saia correndo, idiota.
“Vamos, Chico, saia daí, por favor.”
O pequeno ser parecia estar colocando algo sobre uma vaca deitada no chão. O animal gemeu durante alguns segundos e silenciou-se. Francisco percebeu que o rosto do ser era branco como talco, contrastando-se com dois enormes olhos pretos. Olhos que não eram humanos.
“Vamos, saia correndo, por favor.”
Pisou sem querer em um galho, o que chamou a atenção da criatura, que olhou para Chico. O delegado surgiu nesse instante, empunhando uma espingarda calibre 12 e andando um pouco zonzo pela bebida. Apontou-a na direção do estranho ser, o dedo já pressionando o gatilho.
— Não! — gritou, Chico.
Um estouro forte. A cabeça da pequena pessoa deu lugar a um monte de carne cheia de sangue. Caiu morto no chão. Em questão de segundos outros dois seres surgiram do pasto, vindos do nada. Um deles sacou um objeto e disparou em direção ao delegado, que desapareceu da frente dos olhos do garoto.
Um dos seres olhou novamente para o corpo de seu companheiro morto. Uma expressão de raiva e incompreensão surgiu nas faces da criatura. O ser emitiu um ruído que soou como uma mensagem musical dentro da cabeça de Francisco.
“Quem vê nunca esquece...”
Foi a última coisa que Chico ouviu, antes de perder os sentidos.
O objeto levantou-se do solo, e partiu deixando um rastro de fogo sobre a plantação.
Antônio apareceu um segundo depois, acompanhado pela esposa.
— Francisco, onde está ele?
Avistou o garoto deitado no pasto, a poucos metros do fogo. Carregou-o em seus braços e começou a fugir da queimada.
Atordoado, Chico olhou fracamente para o fogo, e murmurou, antes de perder os sentidos:
— ...Eles se foram, o delegado... todos...
— Calma, está tudo bem.
Na estradinha, Seu Antônio entrou no carro do delegado. Colocou o filho deitado no banco de trás e a mulher chorando no banco da frente. Seu Antônio não sabia dirigir.
Mas isso era o que menos importava no momento.
Alguns minutos depois eles estavam chegando à cidade. Bem na entrada, em frente a igreja, no local da grande cruz de madeira, viram que o delegado jazia espetado sobre ela, como uma minhoca colocada em um anzol. Todo dilacerado e com sangue esparramado sobre o chão.
— Não! Deus, não! — gritou a mulher.


Epílogo
A polícia da capital, não soube dar explicações sobre o ocorrido. Algum tempo depois, por intervenção do exército, o inquérito policial foi dado como encerrado. Em todo tempo que se passou depois que a família de Barros Câmara mudou-se do sítio, o garoto nunca mais foi o mesmo.
Jamais comentou nada sobre o acidente. Adquiriu um jeito triste e quieto, sempre com um olhar distante em direção às estrelas. O passado tinha destruído a plantação e toda a esperança de um futuro melhor.
Francisco foi dado como morto alguns anos depois, em um acidente de carro. Seu corpo jamais foi encontrado.
Alguns dizem que ele finalmente havia conseguido chegar às estrelas.

FIM

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